terça-feira, 9 de outubro de 2007

O Botafogo é a Polônia do futebol.

Conhecer hinos de países diversos diz-nos muito a respeito da humanidade. Estados pobres e fracassados, como o nosso, apelam para suas belezas naturais no momento de ufanismo:

Querida terra da Guiana, de rios e planícies;
rica pelo raiar do sol e voluptuosa por suas chuvas,
preciosa e justa, entre montanhas e mares,
suas crianças saúdam-na, amada terra da liberdade.


Outros, que nem belezas possuem, exaltam a glória pátria:

Pátria, Pátria, Timor-Leste, nossa Nação.
Glória ao povo e aos heróis da nossa libertação.
Vencemos o colonialismo, gritamos:
abaixo o imperialismo.
Terra livre, povo livre,
não, não, não à exploitação!


E todos, eu repito, todos os hinos exaltam a democracia latente de suas nações:

Alto nós te exaltamos, abrigo da liberdade,
grande é o amor que temos por ti;
firmemente unidos, nós resistiremos para sempre,
cantando em tua homenagem, ó pátria-mãe!


Este fragmento acima é, como imagino ser facilmente notável, pertencente ao hino nacional de Serra Leoa.

Outro dia, lendo uma coluna n’O Globo de não-me-lembro-quem, reparei que o botafoguense é assumidamente sofredor. Enquanto vascaínos, fluminenses, sofrem “sem querer”, o torcedor alvinegro assume seu estado de constante frustração publicamente. Mas não tira a camisa.
Claro. Os grandes times do Rio de Janeiro têm torcidas heterogêneas: os flamenguistas são o povão e os esquerdistas meia-boca que querem se identificar com ele. Os vascaínos são a classe-média e camadas inferiores que não admitem sua condição de desfavorecidos. Fluminenses e botafoguenses são aquelas pessoas que você nem espera que gostem de futebol; mas aqueles podem ser “normais”. Botafoguenses são estranhões restritos.

Pois bem; por isso o Botafogo é a Polônia do futebol. A Polônia, um país tão fodido e varado por inúmeros conflitos ao longo de sua história, anexado juntamente à Lituânia pelos germânicos, atacado por Napoleão, invadida por Hitler, pelos soviéticos, etc – tem o hino (A Mazurca Dabrowski) mais derrotista do planeta. Tanto que seus primeiros dois versos são “A Polônia ainda não pereceu/Enquanto vivermos”. Sacaram a sutileza? A Polônia já está perecendo, então. Há uma polifonia no texto. Alguém, anteriormente, afirmou que o Estado já se havia acabado. Daí a necessidade de justificar-se. Não fosse o bastante, o termo “ainda” já deixa claro que o país vai perecer, um dia...

Então: o Botafogo ainda não pereceu enquanto estivermos vivos. Sabemos que ele está perecendo, sim!; sabemos que perecerá, e sabemos que muitos crêem que a chama já se apagou. Mas, como brilhantemente postulou o policial André em “Tropa de Sofredores”: há quem creia que o time ainda pode entrar na Libertadores, e poxa, tem que acreditar mesmo.

Fúria popular
Só não especificaram se a gás ou a lenha.

Marche, marche, Dabrowski...

6 comentários:

Márcio disse...

Acho Botafoguenses mais normaizinhos. Tricolores são estranhões.

Anônimo disse...

sobre o texto:
'Os vasca�nos s�o a classe-m�dia e camadas inferiores que n�o admitem sua condi�o de desfavorecidos.'
esqueceu os portugueses! como exclu�-los?

sobre a foto:
que hist�ria?

muito bom!

Anônimo disse...

....homens.

Anônimo disse...

Muito estranho, Guri.

C.D.P. disse...

...homens.

Turminha do barulho... disse...

não a toa os botafoguenses já vão aos estádios trajando luto, a espera deste momento fatídico.